Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido

Um dia em tons de azul, na cidade marroquina de Chefchaouen (Xexuão)

Início » África » Um dia em tons de azul, na cidade marroquina de Chefchaouen (Xexuão)

Chefchaouen (شفشاون‎) é, na minha visão, uma das cidades mais bonitas de Marrocos. As suas casas pintadas de azul, as montanhas do Rife como pano de fundo, e o ambiente descontraído que se faz sentir contribuem para fazer desta uma cidade muito especial.

O sucesso de Chefchaouen, esse, é relativamente recente. Hoje apelidada de pérola azul de Marrocos, foi maioritariamente devido às redes sociais que a cidade se desenvolveu enquanto destino turístico. Com todas as vantagens e desvantagens que isso traz.

Tive a sorte de visitar Chefchaouen (Xexuão em português) numa altura em que a cidade estava quase despida de turistas. Sorte para mim, claro. A população local depende muito do turismo, que trouxe emprego e novas oportunidades à região noroeste de Marrocos.

Vamos, então, conhecer esta cidade azul, que se encontra entre dois cumes montanhosos e tem tudo para nos dar um dia bem passado. Em especial se acompanhado por um delicioso chá de menta marroquino.

Chefchaouen 01 Marrocos Mundo Indefinido

Um pouco de história

Chefchaouen foi oficialmente fundada de 1471 por Moulay Ali Ben Rachid, para defender esta região da presença portuguesa que se fazia sentir no norte e na costa atlântica de Marrocos. Para se perceber um pouco melhor a história de Portugal em Marrocos, aconselho uma série de vídeos publicada pelo Instituto Camões, num projecto de Frederico Mendes Pintos, que podes ver abaixo.

Em 1492, alguns anos após a fundação oficial, Chefchaouen viu a sua população aumentar. A cidade foi povoada por judeus sefarditas, que fugiam da inquisição na Península Ibérica. Durante a Segunda Guerra Mundial, a comunidade judaica cresceu ainda mais.

Devido ao grande número de judeus, foi criado um bairro Mellah (‏ملاح‎), nome usado em Marrocos para designar um bairro judaico. O conceito é similar ao das judiarias na Península Ibérica. Com a criação de Israel em 1948, contudo, os judeus saíram de Marrocos, havendo hoje menos de 3000 a viver no país.

Tendo tido sucesso na defesa contra os portugueses durante os séculos XV e XVI, o norte de Marrocos acabou por ficar sob domínio espanhol de 1920 até 1956. A 2 de março desse ano, Marrocos teve total independência, tanto de Espanha como de França (que entretanto ocupara o resto do território).

Chefchaouen 02 Marrocos Mundo Indefinido

Mas, afinal, porque é que Chefchaouen é azul?

Vamos à pergunta que não quer calar: porque é que Chefchaouen é azul? As histórias são muitas, e vamos ouvir diferentes versões, dependendo de a quem formos perguntar. Mesmo os habitantes da cidade não estão de acordo na origem desta tradição.

Alguns dirão que o azul representa as águas do Mediterrâneo, que se encontra a 50 quilómetros de distância. Ou então é uma homenagem ao rio Fouara (فوارة), que abastece Chefchaouen. Serve para manter as casas frescas durante os dias quentes de verão, e afastar os sempre persistentes mosquitos.

Porém, uma das teorias dominantes é que as casas iniciais, principalmente no bairro Mellah, foram pintadas de azul pelos judeus sefarditas fugidos da inquisição na Península Ibéria. O azul é a cor que representa o céu e o paraíso, remetendo ao divino.

Hoje, a verdade é que a cidade se mantém azul muito por causa do turismo. O governo local até chega a distribuir as tintas para que a cidade continue assim. A cor azul de Chefchaouen é um chamariz, e é fácil de perceber porquê.

Chefchaouen 03 Marrocos Mundo Indefinido
Chefchaouen 04 Marrocos Mundo Indefinido

O que fazer em Chefchaouen

Chefchaouen é uma cidade relativamente pequena. Um dia é mais do que suficiente para visitar os principais pontos e percorrer muitas das suas ruas. Por outro lado, este é um daqueles locais onde sabe bem apenas estar. Sem grandes planos, sem preocupações e, sobretudo, sem pressas. Ainda assim, deixo aqui algumas actividades que podes fazer nesta pitoresca cidade marroquina.

Deambular pela medina e conhecer os souks (mercados)

O melhor a fazer em Chefchaouen é simplesmente deambular pela sua medina (centro histórico). Esta é uma das medinas mais pequenas de Marrocos, pelo que é relativamente fácil conseguirmo-nos orientar. Podemos ir sem grande destino, descobrindo cada canto e recanto que esta medina tem para oferecer.

As casas têm diferentes tons de azul, e cada beco, escada ou rua estreita são especiais. As flores coloridas em algumas janelas dão um toque ainda mais charmoso a esta cidade. Sem esquecer, claro, que muitas destas casas estão aqui desde o século XV.

Na medina podemos também encontrar o souk (سوق) principal da cidade. Souks são mercados tradicionais do norte de África que oferecem um verdadeiro festim para todos os sentidos. Em Chefchaouen existe uma vantagem em relação às grandes cidades marroquinas: os vendedores não são tão agressivos a tentar forçar a compra, dando espaço para vermos tudo com calma.

Podemos encontrar de tudo um pouco, desde jóias, tapeçarias, roupa, sapatos… De produção local e com os saberes e padrões tradicionais. Depois, temos também pão, azeitonas, fruta, e tâmaras deliciosas.

Medina 01 Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido
Medina 02 Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido
Medina 03 Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido

Beber um chá de menta na Praça Uta El-Hammam

A Praça Uta El-Hammam (وطاء الحمام) fica bem no centro da medina. Contrastando com as pequenas ruelas à sua volta, esta praça tem um ambiente bastante aberto. É um excelente ponto de referência e um local cheio de vida, ideal para ver a vida a acontecer.

Apesar dos cafés e restaurantes que aqui se encontram serem um pouco mais caros do que no resto da cidade, esta praça não deixa de ser um sítio fantástico para se relaxar e beber um típico chá de menta marroquino. Daqui, temos uma vista privilegiada para as montanhas que envolvem Chefchaouen.

Praça Uta El-Hammam Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido

Subir à Torre Portuguesa na cidadela e visitar o Museu Etnográfico

Sabias que existe uma Torre Portuguesa em Chefchaouen? Como vimos, antes dos judeus sefarditas ali chegarem, fugidos da inquisição na Península Ibérica, um povoado já existia em Chefchaouen. Na altura, fazia parte de um sistema para combater a presença portuguesa no norte de África.

A cidadela (قصبة, kasbah) de Chefchaouen, agora restaurada, teve muitos propósitos. Mas talvez esse, de ser muralha defensiva contra as invasões portuguesas, tenha originado o nome actual da torre. A cidadela também foi prisão, e agora conta com um Museu Etnográfico e uma galeria de arte. Tem ainda um jardim em estilo Andaluz. E, claro, vistas bonitas para o resto da cidade.

A visita à cidadela é uma das únicas atrações não-gratuitas da cidade, sendo que a entrada custa 70Dh. No entanto, é um espaço interessante para se compreender um pouco mais sobre o norte de Marrocos em geral e Chefchaouen em particular. O Museu Etnográfico alberga uma colecção de objectos culturais e artísticos, como trajes, instrumentos musicais, armas, entre outros.

Kasbah 01 Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido
Kasbah 02 Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido
Kasbah 03 Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido

Admirar a Grande Mesquita de Chefchaouen

A Grande Mesquita de Chefchaouen (المسجد الاعظم) encontra-se na Praça Uta El-Hamman e foi construída em 1471, aquando da fundação da cidade. Para além de ser um local de culto, também era um centro de ensino de ciências humanas e estudos islâmicos.

Esta mesquita tem a particularidade do seu minarete ter o formato octogonal, algo que não se vê nas restantes mesquitas do país. Como em todas as mesquitas em Marrocos, o acesso ao interior da Grande Mesquita de Chefchaouen está interdito a não-muçulmanos.

A excepção a esta regra é a Mesquita Hassan II (مسجد الحسن الثاني), em Casablanca, onde é possível entrar em regime de visita guiada, em horários específicos. O Alcorão, em si, não proíbe explicitamente visitas a mesquitas. No entanto, alguns países muçulmanos decidem não permitir a entrada a não crentes, para não perturbar quem está em oração.

Grande Mesquita de Chefchaouen Marrocos Mundo Indefinido

Ter a melhor vista panorâmica da Mesquita Espanhola

Chefchaouen está cercada pelas montanhas do Rife. O seu nome, aliás, foi inspirado nessa paisagem. Em línguas Tamazigh, Chefchaouen significa algo como “ver os cornos”, referindo-se aos dois cumes montanhosos que se vislumbram da cidade.

Assim, é natural que as melhores vistas sobre Chefchaouen sejam de um ponto elevado. Uma caminhada de cerca de 2 quilómetros a partir do portão Bab el Onsar (باب الأنصار) levam-nos até à Mesquita Espanhola, também chamada Mesquita Bouzaafar (مسجد بوزعافر).

Daqui, temos acesso a um magnífico miradouro. O percurso é sempre a subir e o terreno é um pouco acidentado, pelo que aconselho a levar um calçado confortável e a evitar as horas de maior calor. Diria que subir com tempo para assistir ao pôr-do-sol é o ideal.

A mesquita, essa, foi construída durante a ocupação espanhola, em pleno século XX. Porém, a mesquita nunca foi bem aceite e acabou por cair em desuso. Chegou a ter trabalhos de recuperação ao longo dos anos, mas nunca mais chegou a ser usada como mesquita.

Guia prático

Como chegar

Chefchaouen não tem aeroporto. No entanto, existem ligações terrestres à maioria das grandes cidades marroquinas através autocarro ou táxi partilhado. O aeroporto mais próximo é o de Tânger, havendo voos directos de Lisboa entre Junho e Outubro. Também é possível chegar a Tânger de barco, por Tarifa (Espanha), numa viagem bastante tranquila que dura uma hora.

De Tânger, o autocarro até Chefchaouen demora cerca de 2h30 e existem 5 partidas diárias. Os bilhetes custam 65Dh e podem ser comprados online, directamente na página web da empresa CTM. Também existem ligações de outras cidades marroquinas, como Tétouan, Fez, Meknès, ou Casablanca.

A forma mais prática e cómoda de percorrer Marrocos, no entanto, é em carro próprio ou em carro alugado. É a opção que dará mais liberdade, mas é preciso ter em atenção que nem todas as estradas marroquinas têm boas condições, e o trânsito pode ser desafiante, em particular em grandes cidades como Casablanca ou Marraquexe.

Para uma conversão actualizada de dirhams marroquinos para euros, vê o site xe.com.

Alojamento

Na altura em que visitei Chefchaouen não pernoitei por aqui, tendo feito apenas uma viagem de ida e volta a partir de Tânger. No entanto, e apesar de não ser uma cidade grande, Chefchaouen tem uma oferta de alojamentos bastante atractiva.

Mesmo que não o tenha feito, recomendo ficar pelo menos uma noite em Chefchaouen, na zona da medina (centro histórico), especialmente num riad. São habitações típicas marroquinas, fechadas para o exterior, e normalmente com um pátio interior central, azulejos, fontes, e jardins. Tem apenas em atenção que carros não podem entrar na medina, pelo que as bagagens terão de ser transportadas a pé, por ruas estreitas e com alguns altos e baixos.

A nível de alojamentos, a Usha Guest House tem uma boa relação qualidade-preço. Se estiveres com um orçamento mais reduzido, o Dar Antonio é uma boa opção. A Casa Sabila, apesar de ter um custo mais superior, também é um espaço a ter conta, especialmente devido à sua política de sustentabilidade. Para uma gama mais elevada, espreita o Dar Elrio ou o Dar Jasmine.

Qualquer que seja a opção, aconselho a que reserves com alguma antecedência, pois os melhores alojamentos tendem a ficar ocupados rapidamente.

Alojamento em Chefchaouen

Este artigo pode conter links afiliados.

 

Deixa um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *