Ao chegar à Gruta do Escoural, no concelho de Montemor-o-Novo, não havia ninguém no pequeno parque de estacionamento. Afinal, tínhamos chegado com bastante antecedência para a visita, sempre guiada, e aguardávamos a hora de entrar. Observávamos a calma alentejana, quando chegaram uma família e um grupo de amigos. No total, éramos 9.
Se me acompanhas há algum tempo, sabes que tenho um carinho especial por grutas, minas e tudo o que seja espaços debaixo de terra. Assim, aproveito todas as oportunidades para visitar este tipo de locais. Mas a Gruta do Escoural tem uma particularidade que a torna, na minha opinião, ainda mais especial: os nossos antepassados do Paleolítico Superior deixaram arte nas paredes desta gruta. Desces comigo?


A descoberta recente e inesperada da Gruta do Escoural
Em 1963, trabalhadores de uma pedreira que laborava no local fizeram uma descoberta inesperada. Durante os seus trabalhos de extração de mármore, depararam-se, surpreendentemente, com uma abertura que conduzia a uma cavidade natural. Ao entrar, as paredes da gruta revelaram pinturas e gravuras rupestres.
As evidências arqueológicas mostram ocupação humana na Gruta do Escoural que remonta ao Paleolítico Médio. Posteriormente, durante o Paleolítico Superior, os nossos antepassados deixaram um conjunto de pinturas e gravuras. Já no Neolítico, a gruta terá sido ainda utilizada como necrópole.

A arte rupestre da Gruta do Escoural
Entre 40.000 e 10.000 anos atrás, grupos de caçadores-recoletores percorriam as planícies do Alentejo, seguindo as manadas de animais selvagens. Esses animais foram, então, fonte de inspiração para algumas das pinturas. Entre as representações mais comuns encontram-se sobretudo equídeos (cavalos ou asnos selvagens) e bovídeos. Há, também, alguns símbolos abstratos cuja interpretação ainda desafia os arqueólogos.
Os pigmentos utilizados pelos artistas pré-históricos eram obtidos de materiais naturais disponíveis na região: óxidos de ferro para os tons avermelhados e alaranjados, carvão para o negro, e possivelmente óxidos de manganésio para tons mais escuros. A aplicação era feita diretamente com os dedos, com pincéis rudimentares feitos de pêlos de animais ou fibras vegetais, ou através da técnica do sopro, na qual o pigmento era pulverizado sobre a parede.

A visita à Gruta do Escoural
Ao descer para a gruta, a nossa guia doseou a luz com cuidado. Abre-se uma primeira porta, pela qual passamos e onde colocamos os capacetes. Só depois dessa porta estar fechada é que acedemos à gruta, por uma segunda porta.
A guia explicou que o objetivo desta dupla passagem é minimizar as alterações no microclima da gruta. Variações de humidade, temperatura, e luminosidade podem, a longo prazo, afetar a preservação da arte ruplestre. Também por isso o número de visitantes é limitado, e as visitas à Gruta do Escoural são sempre realizadas com acompanhamento.
Dadas as recomendações iniciais, como não tocar nas rochas e não tirar fotografias, era altura de olhar para as paredes. À primeira vista, parecia uma gruta comum, sem nenhum elemento distintivo. Até que a nossa guia apontou a sua lanterna para locais específicos e, quase como por magia, surgem as figuras de animais.
Confesso que é preciso alguma paciência para conseguir distinguir os contornos das pinturas, mas assim que os olhos se adaptam, é inegável que estão lá. É impressionante como sobreviveram ao passar dos anos!
À medida que contemplava as pinturas e gravuras rupestres, agora extremamente visíveis para os meus olhos, diversas perguntas surgiam na minha mente. Quem eram aquelas pessoas? O que pensavam quando pintavam aquelas paredes? Que medos e sonhos tinham? Estas perguntas talvez nunca tenham resposta, mas uma coisa é certa: a necessidade de criar atravessa todos os tempos e todas as culturas.


Guia prático
Como chegar
A melhor forma de se chegar à Gruta do Escoural é de carro. Quando visitei a gruta, estava a fazer o percurso da Estrada Nacional 2, e Escoural encontra-se mesmo na rota da estrada, não sendo necessário fazer desvios. No entanto, a gruta encontra-se na N370 (M370), uma estrada transversal à N2, logo à saída de Escoural. Do centro de Escoural até à gruta são cerca de 5 minutos de carro.
Dicas
- Leva roupa e calçado confortáveis, de preferência para caminhada. As grutas são húmidas e o piso pode estar escorregadio.
- Não é má ideia levares um casaco, mesmo se fores no verão. A temperatura na gruta ronda os 18 °C.
- As visitas são sempre guiadas, não sendo possível visitar a gruta de forma independente.
- Não é permitido tirar fotografias, para proteger as pinturas.
- A circulação faz-se por vários desníveis. Não é uma gruta adequada para quem tem mobilidade reduzida.
Informação útil
Site: Centro Interpretativo da Gruta do Escoural
Horário das visitas guiadas: De quarta-feira a domingo (de junho a setembro) e de terça-feira a sábado (nos restantes meses), às 10h00, 11h30, 14h30 e 16h00 (horários detalhados)
Preço: 3€ (preços detalhados)
Morada: Gruta do Escoural, M360, Freguises, 7050 Santiago do Escoural
Importante: As visitas são sempre guiadas, e é necessário fazer marcação prévia, preferencialmente com uma antecedência superior a 24 horas, através do e-mail visitar@patrimoniocultural.gov.pt ou do telefone +351 266 857 000.
Nota: Horários e preços à data de publicação deste artigo.
Alojamento
Aquando da minha visita à Gruta do Escoural, estava a fazer o percurso da Estrada Nacional 2, e fiquei alojada em Ciborro, na Courela do Moinho. Na altura, era um espaço recente, num local tranquilo e com funcionários extremamente simpáticos. Assim, é uma excelente opção para quem quer aproveitar o silêncio da natureza. Só de notar que, durante o verão, a parte superior do chalé fica muito quente, pelo que temos de usar o ar condicionado (o que tento sempre evitar). Mas é um espaço bastante agradável.
No entanto, existem algumas opções de alojamento em Escoural e arredores, como o Monte da Masmorra de baixo, a Torre da Giesteira ou o Aposento Real Villas.




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