A Ilha do Faial guarda um local que nos transporta para uma época em que a baleia era o motor da economia da região. A Fábrica da Baleia de Porto Pim, hoje transformada em museu, é um testemunho vivo dessa era, retratando de forma muito crua o processo que envolvia a caça à baleia.
Neste artigo, vamos conhecer não só o Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim, mas também o impacto da caça da baleia na cultura e economia dos Açores. Mas quero deixar algo muito claro: este não é um museu para todos.
Aqui, temos a oportunidade de compreender a evolução da relação entre o ser humano e o mar. No entanto, o museu conta com vídeos bastante gráficos da caça à baleia, assim como do processo subsequente de transformação dum magnífico animal marinho em matéria-prima.
É possível visitar o museu sem ver esses vídeos, mas a fábrica detém todas as máquinas antigamente utilizadas no processo, o que pode suscitar sentimentos de desconforto em algumas pessoas. Dito isto, vamos aprender como se passou da caça à conservação da baleia?

A indústria baleeira nos Açores
Antes de falarmos sobre o Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim, é importante entender o contexto histórico da indústria baleeira nos Açores. Esta atividade teve o seu auge entre os séculos XIX e XX, quando o arquipélago açoriano se tornou num dos centros mais importantes de caça à baleia no Atlântico Norte. Embora a caça à baleia remonte aos tempos medievais, foi durante este período que cresceu significativamente na região.
No século XIX, devido ao contacto com a caça à baleia americana e com as suas técnicas, a actividade rapidamente passou a ser praticada em todas as ilhas dos Açores. As baleias cachalote, abundantes nas águas açorianas, eram o principal alvo desta indústria. A sua gordura era transformada em óleo, depois usado para iluminação e como matéria-prima em vários produtos industriais.
Vamos ser honestos: a actividade baleeira gerava emprego e era fundamental para a economia da região. Esta indústria era uma importante fonte de rendimento para muitas famílias, que dependiam da captura e processamento destes gigantes marinhos.
Assim foi até à década de 1960, altura em que a actividade de caça à baleia começou a entrar em declínio. A proibição da caça comercial de baleias, implementada a nível internacional, marcou o fim de uma era e obrigou as comunidades costeiras a encontrar novas formas de subsistência.

A evolução para o turismo de observação de baleias no seu habitat natural
A caça indiscriminada e a falta de regulamentação durante longos anos, levaram à sobre-exploração de baleias, colocando em risco a sobrevivência de várias espécies. Com a passagem do tempo e a crescente consciência ambiental, a caça à baleia começou a ser vista como uma prática insustentável, o que levou à sua gradual proibição. Em 1984, os Açores deixaram oficialmente de caçar baleias.
Assim, as comunidades costeiras açorianas tiveram de se adaptar a uma nova realidade, procurando alternativas económicas à indústria baleeira. O foco mudou, então, para o turismo e para a conservação.
O arquipélago tornou-se num dos destinos de turismo de natureza mais procurados no mundo, com a observação de cetáceos a ganhar destaque. Agora, em vez de caçadores, os mares dos Açores acolhem turistas, que vêm de todo o mundo para admirar estas majestosas criaturas.
No Faial, tal como noutras ilhas do arquipélago, várias empresas oferecem passeios de barco, permitindo que os visitantes vejam de perto espécies como a baleia azul, o cachalote, o golfinho-comum, entre outras. Adicionalmente, a antiga fábrica da baleia transformou-se em museu.
Este tipo de turismo sustentável tem desempenhado um papel crucial na conservação das espécies e no fortalecimento da economia local. A rica biodiversidade dos oceanos que circundam os Açores é um legado que devemos preservar para as gerações futuras.


A Fábrica da Baleia transformada em Museu: um espaço de memória e educação
O Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim está alojado numa antiga fábrica baleeira, que funcionou entre 1942, quando a exportação do óleo de baleia estava no seu auge, e 1974. Este edifício foi um dos mais importantes locais de processamento de baleias na Ilha do Faial.
O objectivo desta fábrica da baleia era a “exploração da indústria do aproveitamento integral da baleia e outras espécies marinhas e comércio dos respectivos produtos”. Durante os seus mais de 30 anos de actividade, a fábrica processou 1940 cachalotes, que produziram 44 mil bidões de óleo.
Após o seu encerramento, a fábrica da baleia ficou praticamente ao abandono. Depois de duas décadas de degradação do edifício e da sua maquinaria, o espaço foi finalmente alvo de obras de restauro. Em 2000 abre como museu, permitindo que os visitantes vejam de perto o equipamento original utilizado no processamento das baleias.

Uma visita à exposição permanente do Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim
A exposição permanente do Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim conta praticamente com toda a sua maquinaria original. Ao entrar, somos convidados a seguir o percurso do processamento das baleias (cachalotes) para obtenção dos subprodutos, que seriam posteriormente comercializados.
O museu conta com vídeos de arquivo que mostram a captura e o processamento dos cachalotes. Como referi no início, estes vídeos são extremamente crus, e podem suscitar sentimentos de grande desconforto em algumas pessoas. Se achas que tal te pode acontece, não os vejas e passa também à frente da secção seguinte neste artigo.
As diferentes máquinas da Fábrica da Baleia de Porto Pim
Depois de caçados em alto mar, lanchas a motor rebocavam os cachalotes até à baía de Porto de Pim. Duas caldeiras geravam o vapor necessário para o funcionamento de todas as máquinas.
O primeiro passo consistia em içar o cachalote até à plataforma de desmancho junto à fábrica, através de um sistema de guinchos. Apesar do óleo de cachalote ser o produto principal da indústria baleeira açoriana, na Fábrica da Baleia aproveitavam tudo.
Da cabeça era retirado o toucinho, que era cortado e colocado nas autoclaves do toucinho, para extracção do óleo. O processo de extracção durava cerca de oito horas. Depois, os trabalhadores arrancavam a carne e os ossos, que introduziam nas autoclaves de ossos e aproveitamentos.
A carne, essa, era introduzida no moinho para carnes e posteriormente transportada para o cozedor. Aqui, a carne moída cozia durante 4 horas, de onde passava para o espremedor. Esta máquina tinha como função retirar os líquidos (sangue e água) que ainda poderiam restar na carne cozida.
A carne era, de seguida, transportada para o secador, para desidratar por completo. Após este processo, a carne seca ia para o moinho de martelos, que triturava os pedaços maiores (carne e ossos).
O último passo neste processo era a passagem pela peneira das farinhas. Esta máquina permitia separar as diferentes espessuras das farinhas, para serem ensacadas e vendidas. As farinhas, ricas em proteínas, eram consideradas um excelente adubo agrícola e também utilizadas como complemento para a alimentação do gado.



O esqueleto real de um cachalote
No piso superior da fábrica, encontramos um esqueleto real de um cachalote fêmea. Este cachalote deu à costa já sem vida, e diversos cientistas estudaram o seu esqueleto. Está agora em exposição, para todos o poderem observar.


Considerações finais sobre o Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim
O Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim é mais do que apenas um museu: é uma porta de entrada para a compreensão de uma parte crucial da história açoriana e da importância da indústria baleeira no arquipélago. Este é um local de memória e de aprendizagem, mas também de reflexão profunda sobre a nossa relação com o mar.
Este espaço desafia-nos a olhar para o passado, assim como a pensar no futuro, de forma a encontrarmos formas mais sustentáveis de conviver com o oceano. Se planeias visitar a Ilha do Faial, pensa incluir este museu no teu itinerário. Vem descobrir como uma pequena baía no meio do Atlântico pode ser tão fundamental para moldar o mundo em que vivemos.
Guia prático
Como chegar
Fui para o Faial de barco, vinda de São Jorge. A viagem começa em Velas (Ilha de São Jorge) e termina na Horta (Ilha do Faial), tendo uma paragem na Madalena (Ilha do Pico). Os bilhetes podem ser comprados no porto ou online, directamente na página web da empresa Atlântico Line. A compra online é, aliás, o que recomendo.
A nível de voos, o aeroporto da Horta tem ligações com Lisboa, Ponta Delgada (Ilha de São Miguel), Ilha Terceira, Ilha do Corvo, e Ilha das Flores.
Do porto da Horta, fui até ao hotel de táxi e, depois, fui a pé até ao Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim. Os táxis da Associação de Taxistas do Faial têm, actualmente, uma tarifa fixa, tabelada, conforme a distância e o número de passageiros.
Informação útil
Site: Observatório do Mar dos Açores
Horário: Segunda a sexta-feira das 10h00 às 17h00
Preço: 7€ para adultos | 3,5€ entre os 11 e os 17 anos e para maiores de 65 anos (preços detalhados)
Morada: Fábrica da Baleia de Porto Pim, Monte da Guia, 9900-000 Horta, Ilha do Faial, Açores, Portugal
Nota: Horários e preços à data de publicação deste artigo.
Alojamento
Aquando da minha visita ao Museu da Baleia de Porto Pim, fiquei alojada no Hotel Horta. O hotel tem uma excelente vista para a Ilha do Pico (e para a sua magnífica montanha), o que é, sem dúvida, a sua melhor característica. No entanto, o hotel fica no topo de uma colina, o que pode tornar desafiante o regresso a pé até ao quarto, para quem tiver dificuldades de mobilidade.
Uma outra opção, mais perto de restaurantes e numa zona plana, é o Hotel do Canal. No entanto, no Faial há muitos alojamentos locais ou casas de hóspedes, como o Dabneys Studio ou o Apartamento Avenida, se essa for a tua preferência. De certeza que vais encontrar um alojamento que te agrade.




Gostei muito do retrato que fez da ilha ondo moro, através deste Museu que conheço bem.
Obrigada, Carlos! É um Museu muito interessante, e o Faial é uma ilha tão bonita, gostei muito de estar por aí.