Confesso que a minha primeira ida à Turquia foi mais por acaso do que por planeamento. Outros países estavam à frente, mas quis o destino que a Turquia subisse na lista de forma galopante. Assim, quase de um dia para o outro, vi-me a aterrar em Istambul. E foi das melhores surpresas que podia ter tido.
A Turquia está cheia de contrastes: entre a Europa e a Ásia, entre a tradição e a modernidade, entre o burburinho da água em Pamukkale e o silêncio das rochas da Capadócia… Andei uma semana pela Turquia, e este país é, de facto, fascinante, com uma das populações mais amáveis que já encontrei.
Para mim, sugerir roteiros de viagem é sempre difícil, porque cada pessoa tem ritmos, interesses e orçamentos diferentes. Assim, encara este roteiro na Turquia – que representa o percurso que eu fiz – como um ponto de partida para organizares o teu próprio itinerário, de acordo com os teus gostos, orçamento, e tempo disponível.
Dito isto, vamos então ao meu itinerário de 7 dias pela Turquia. Repara apenas que estes são dias completos, pelos que reserva um dia extra para a chegada e outro para a partida, num total de 9 dias.
Resumo do roteiro
- Dia 1: Istambul
- Dia 2: Istambul
- Dia 3: Istambul
- Dia 4: Istambul e Denizli
- Dia 5: Pamukkale e Hierápolis
- Dia 6: Capadócia
- Dia 7: Capadócia
Dica: O MuseumPass dá para mais de 350 museus em toda a Turquia. Dependendo dos locais que queiras visitar, pode valer a pena comprar o passe em vez de comprar os bilhetes individuais. Faz as contas, e verifica o que é mais vantajoso para ti.
Roteiro completo na Turquia (7 dias)
Dia 1: Istambul
No primeiro dia em Istambul, começamos pela Grande Mesquita de Santa Sofia (Ayasofya-i Kebîr Camii Şerîfi). Também conhecida como Basílica de Santa Sofia, é uma ponte entre religiões e impérios. Vale a pena enfrentar as longas filas e os controlos de segurança para a ver por dentro.
Daqui, partimos para a Mesquita do Sultão Ahmed (Sultanahmet Camii). É popularmente chamada de Mesquita Azul, devido aos azulejos de İznik em tons de azul que adornam parte do seu interior. Digo parte porque, ao entrar, notamos que existem muitas outras cores.
Debaixo da Praça de Sultanahmet encontra-se o antigo Hipódromo de Constantinopla. Embora muito da estrutura original tenha desaparecido, ainda é possível ver alguns vestígios. Aqui, temos a Fonte Alemã, o Obelisco Egípcio, a Coluna Serpentina, e o Obelisco Murado.


Mesmo ao pé está a Cisterna da Basílica (Yerebatan Sarnıcı). Esta é a maior e mais famosa das várias cisternas subterrâneas que ainda existem em Istambul, e que foram construídas durante o Império Bizantino.
Descendo a rua, vamos dar ao Parque Gülhane. Durante a primavera, é um parque magnífico para passear. Nessa altura enche-se de flores, especialmente tulipas.


Junto ao Bósforo, temos a estação de comboios Sırkecı, a principal conexão ferroviária com a Europa. Foi, durante vários anos, a estação terminal do Expresso do Oriente.
O dia vai longo, mas há tempo para visitar alguns locais em Eminönü. O Bazar Egípcio (Mısır Çarşısı), também conhecido como Bazar das Especiarias, atrai muitas pessoas diariamente, focando-se maioritariamente na venda de especiarias.


Ali perto há duas mesquitas interessantes: a Mesquita Nova (Yeni Camii) e a Mesquita de Rüstem Paxá (Rüstem Paşa Camii). A primeira foi construída durante o Sultanato das Mulheres. O que torna a segunda tão especial é a utilização quase obsessiva dos azulejos de İznik.


Dormida em Istambul: Orka Royal Hotel & Spa
Dia 2: Istambul
O segundo dia em Istambul começa com uma caminhada até à Mesquita de Solimão (Süleymaniye Camii). Localizada numa das colinas de Istambul, oferece uma das melhores vistas da cidade.
Ali perto encontra-se o Grande Bazar (Büyük Çarşı ou Kapalıçarşı), com mais de 4 000 lojas em cerca de 60 ruas cobertas. Desde joalharia em ouro até tapetes artesanais, cerâmicas pintadas à mão, e lanternas de vidro colorido, aqui encontra-se de tudo um pouco.


Depois de percorrer as ruas movimentadas do bazar, apanhamos o elétrico até Balat e Fener. Situados na margem sul do Corno de Ouro, a oeste de Eminönü, são bairros vizinhos e as suas histórias entrelaçam-se. No entanto, têm identidades distintas, moldadas por anos de influência grega, judaica, e arménia. Atualmente, têm um ambiente boémio e casas coloridas.

O destino seguinte é a margem norte do Corno de Ouro. Aqui, temos a Istiklal Caddesi, uma das avenidas mais famosas de Istambul. Vedada ao trânsito automóvel, esta avenida estende-se ao longo de quase 2 quilómetros, com diversas lojas, ligando a Praça Taksim à Torre de Gálata, passando pela Igreja de Santo António.
A Praça Taksim (Taksim Meydanı) era onde, antigamente, se centralizava a distribuição de água vinda das áreas a norte para a cidade. Hoje, é o ponto de partida de muitas manifestações, de diversas orientações políticas.
A Torre de Gálata (Galata Kulesi) é um excelente local para terminar o dia. Originalmente construída como parte das fortificações genovesas no século XIV, a Torre de Gálata já foi torre de vigia, prisão, observatório astronómico. Tal como a Mesquita de Solimão, oferece uma das melhores vistas de Istambul.


Dormida em Istambul: Orka Royal Hotel & Spa
Dia 3: Istambul
O terceiro dia por Istambul é dedicado à parte asiática da cidade, assim como à zona norte da parte europeia. Começamos, então, por apanhar um barco e seguir até Üsküdar, na Ásia. Daqui, um autocarro leva-nos até à Grande Mesquita de Çamlıca (Büyük Çamlıca Camii). Inaugurada em 2019 é, neste momento, a maior mesquita de toda a Turquia. O melhor? Podemos subir até ao segundo piso e ter uma visão completamente diferente deste local de culto.

Da colina de Çamlıca, apanhamos um autocarro até Kadıköy e Moda. Esta é a Istambul dos locais, sendo uma zona residencial e comercial, com inúmeros bares e cafés modernos, cinemas, e livrarias. Também é aqui que podemos encontrar Midye Dolma, os típicos mexilhões recheados.
De Kadıköy apanhamos um barco e regressamos à Europa. A viagem pelo Bósforo leva-nos até Ortaköy, passando por bonitos palácios e mansões que se encontram na margem do rio. Também com vista para o Bósforo, temos a Mesquita de Ortaköy ou Grande Mesquita Imperial (Büyük Mecidiye Camii). É uma das mesquitas mais fotogénicas de Istambul, em estilo barroco otomano, com janelas amplas que deixam entrar luz natural e candelabros de cristal que acrescentam brilho ao interior.
A Mesquita de Ortaköy é perfeita para uma visita ao final da tarde, onde se pode desfrutar do pôr do sol sobre o Bósforo e observar o movimento dos barcos. A área de Ortaköy em si também é interessante, com vários cafés, restaurantes, e bancas de rua que vendem Kumpir (grande batata assada recheada).


Dormida em Istambul: Orka Royal Hotel & Spa
Dia 4: Istambul e Denizli
No quarto e último dia em Istambul, o ritmo desacelera um pouco. Ainda assim, o melhor será começar cedo. O Palácio Topkapı (Topkapı Sarayı) atrai milhões de visitantes todos os anos, e é um vasto complexo com cerca de 700 000 metros quadrados, dividido em quatro pátios principais. Ou seja, conta com uma manhã inteira para visitar o espaço, e leva uma dose extra de paciência. Conforme a época do ano, as filas do controlo de segurança podem ser longas.
Durante a tarde, uma boa opção é ir até aos Banhos Cağaloğlu (Cağaloğlu Hamam). Existem vários locais em Istambul com banhos turcos tradicionais, mas o Cağaloğlu foi um dos últimos grandes banhos a ser concluído durante o Império Otomano.
Ao fim da tarde, embarcamos num voo rumo a Denizli, onde Pamukkale nos esperava.


Dormida em Pamukkale: Hotel Sahin
Dia 5: Pamukkale e Hierápolis
Pamukkale é, para mim, um dos locais mais impressionantes da Turquia. Esta maravilha natural é famosa pelas suas piscinas termais de calcário em terraços brancos. Mas Pamukkale é, também, inseparável da antiga cidade de Hierápolis, hoje um sítio arqueológico de grande importância.
Após comprarmos os bilhetes e passarmos as cancelas, temos de tirar os sapatos. É aqui que a visita começa, e a água fresca vai-nos acompanhar enquanto subimos a colina.
Os incríveis terraços em travertino branco (rocha calcária) formam-se quando a água das nascentes, rica em cálcio, perde dióxido de carbono ao fluir pelas encostas. Assim, vai deixando depósitos de calcário branco, que deram ao local o nome de Pamukkale.
É fácil de perceber o porquê do nome. Afinal de contas, os terraços e bacias naturais brilham ao sol, num tom branco como algodão. Há, também, quem diga que parece neve.
No topo das formações em travertino de Pamukkale ergue-se Hierápolis. Fundada no século II AEC por Eumenes II, rei de Pérgamo, a cidade era famosa pelos seus têxteis, principalmente lã. Mas foram as nascentes de água que tornaram Hierápolis numa estância termal popular. Durante o período helenístico e, posteriormente, sob domínio romano, a cidade transformou-se num centro terapêutico e espiritual.
Hierápolis atingiu o seu auge entre 196 e 215 EC. Foram construídos grandes edifícios públicos, como teatros, templos, banhos públicos, e uma grande necrópole. Todavia, a cidade acabou por entrar em declínio no século VI, e foi esquecida pelo tempo até às escavações arqueológicas modernas.
Depois de passarmos o dia neste local absolutamente magnífico, à noite apanhamos um autocarro noturno para Göreme, na Capadócia.


Dormida: Autocarro noturno
Dia 6: Capadócia
No sexto dia na Turquia, e após uma longa viagem de autocarro, chegamos à Capadócia ao amanhecer. Göreme está quase adormecida a essa hora, embora o seu céu comece a ficar preenchido por balões de ar quente.
A vila de Göreme é charmosa e pequena, perfeita para passear a pé. No entanto, considero que está a ficar um pouco descaracterizada devido ao aumento do turismo. É um equilíbrio delicado, entre a população local e a procura que existe por esta vila no centro da Capadócia.
A paisagem desta região é adornada por magníficas chaminés de fada. Entre as muitas coisas que podemos ver e fazer pela Capadócia, neste dia vamos até ao Museu ao Ar Livre de Göreme (Göreme Açık Hava Müzesi), bem no centro do Parque Nacional de Göreme.
O Museu ao Ar Livre de Göreme é um complexo de igrejas, capelas e mosteiros escavados no interior das rochas por monges bizantinos. No século II, os monges adotaram um estilo de vida eremita na região da Capadócia, e este costume monástico prevaleceu em Göreme do século IV ao século XIII. As igrejas da região, incluindo as que podemos ver no Museu ao Ar Livre, eram pintadas com histórias da Bíblia e da vida de Jesus Cristo, e muitos desses frescos ainda estão conservados.
Passamos o resto do dia a deambular por Göreme, com paragens para chá turco e pratos locais. À noite, vamos para a cama cedo, porque o dia seguinte irá começar ainda antes do sol nascer.


Dormida em Göreme: Elysee Cave House
Dia 7: Capadócia
No sétimo na Turquia acordamos ainda de noite, mas vale a pena. Afinal, não é todos os dias que voamos num balão de ar quente.


De volta à vila, seguimos o Percurso Verde (Green Tour), um passeio de um dia pelo sul da Capadócia. A primeira paragem é o Panorama de Göreme. Aqui, há várias chaminés de fada, as típicas formações rochosas da Capadócia.

O ponto seguinte são as cidades subterrâneas da Capadócia. Estima-se que existam mais de 200 na região, no entanto, duas cidades destacam-se pelo seu tamanho, complexidade, e importância histórica: Derinkuyu e Kaymaklı.


De volta à superfície, vamos até ao Vale de Ihlara, um vale profundo esculpido pelo rio Melendiz. Ao longo do percurso, descobrimos igrejas escavadas na rocha pelos cristãos bizantinos, algumas com frescos bem preservados.


A meio do percurso, paramos num restaurante junto ao rio. O menu é simples mas saboroso: sopa de lentilhas, salada, prato principal (carne, peixe, ou vegetariano), e fruta da época.


Num dos extremos do Vale de Ihlara, o Mosteiro de Selime ergue-se da pedra. Este foi um importante centro monástico, onde viveram monges cristãos. Ainda se vislumbram bonitos frescos, em particular na igreja.


Seguimos, então, para o Vale dos Pombos. Este nome deve-se às centenas de cavidades nas rochas, escavadas para acolher pombos. Os pombos eram mensageiros, e o seu excremento era usado como fertilizante.


Vamos, ainda, ao Vale do Amor, com as suas formações rochosas peculiares. O nome origina numa lenda sobre dois amantes de famílias rivais. Os jovens queriam ficar juntos, mas as famílias não se reconciliaram, acabando os dois por morrer. Segundo a lenda, forças divinas criaram as formações do vale como um símbolo do amor eterno.

Visitando três regiões diferentes, considero que este roteiro é uma boa introdução à Turquia, deixando ainda vontade de regressar.
Guia prático
Como chegar
Istambul é, para muitas pessoas, a porta de entrada para a Turquia. Existem voos diretos de Lisboa e do Porto para Istambul, operados pelas Turkish Airlines. Às vezes, os voos são mais em conta se tiverem uma escala numa outra cidade europeia, mas também são trajetos mais poluentes, pois os aviões gastam mais combustível nas descolagens e aterragens.
Istambul tem dois aeroportos internacionais: Istanbul Airport (IST) e Sabiha Gökçen (SAW). O primeiro encontra-se na parte europeia de Istambul e é mais perto do centro da cidade. Já o segundo está na parte asiática de Istambul e é um pouco mais longe. A maioria dos voos internacionais da Turkish Airlines aterra no Istanbul Airport.
A Turquia é um país vasto, onde as distâncias são grandes. Existem voos a ligar diversas cidades, assim como uma grande rede de autocarros, muitos dos quais são noturnos. Dependendo do itinerário, pode fazer sentido ter uma combinação de vários transportes.
Alojamento
Na Turquia o que não falta são opções de locais onde ficar. Recomendo todos os locais onde pernoitei, que fui deixando ao longo do roteiro. Em Istambul, Sultanahmet é um dos bairros mais centrais, onde a oferta também é maior. Já em Pamukkale a oferta não é tão vasta, e o Hotel Sahin tem a vantagem de ter vistas impressionantes para o complexo. Já na Capadócia, aconselho a ficar num hotel na rocha, porque é onde nos vamos sentir mais em sintonia com a região.
Qualquer que seja a opção, o preferível será sempre reservar com alguma antecedência, pois os melhores alojamentos tendem a ficar ocupados rapidamente.




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